11/06/2015

Cortes na previdência: a herança maldita deixada pelos alemães


Lições do passado que os herdeiros pagam caro


A persistência dos credores para “tesourar” os gastos que apoiam o estado da previdência social é conhecida. As asfixiantes pressões que têm sido exercidas em todos os hiperendividados países do Sul Europeu com objetivo de sacrificarem os gastos destinados aos denomiados frágeis grupos populacionais no santuário do saneamento fiscal e da produtividade constituem os alicerces dos programas de severa frugalidade.



Aliás, se alguém estudar com atenção não só programas de severa frugalidade de inspiração alemã, mas também os correspondentes do Fundo Monetário Internacional (FMI) adotados por países da Europa Oriental e do Sul da Ásia, chegará à conclusão de que para os cérebros da economia, os responsáveis pela crise são os aposentados, os doentes, os desempregados e os jovens.

A história mostra e prova que o darwinismo político – que, desesperadamente, tentam encobrir seus inspiradores – conduz, com exatidão matemática, a resultado totalmente oposto àquele que supostamente desejam: o desregrar pleno da economia.

Os alemães, calorosos defensores do drástico “tesourar” dos gastos públicos que dizem respeito à proteção dos mais frágeis grupos populacionais, seguramente conhecem – melhor de que qualquer outro europeu – as consequências dos débitos que decorrem, assim como as terríveis dificuldades que são provocadas quando o Estado começa a aplicar limites sobre os gastos sociais. 



Desde Weimar



Aliás, a Alemanha era aquela que desde a época do chanceler Bismarck (Otto Eduard Leopold von Bismarck), que tornou-se conhecido como Chanceler de Ferro, institucionalizou o seguro-saúde, seguro contra acidentes e as aposentadorias para idosos. Mas também a República de Weimar esforçou-se para construir um Estado de previdência. A propósito, a Constituição de Weimar incluia proclamações sobre o dever do Estado de proteger o direito ao trabalho e proporcionar moradia digna para os pobres.

Com uma série de leis adotou-se a previdência social, os salários-desemprego, enquanto os programas existentes para o seguro-saúde e as aposentadorias foram desenvolvidos e expandidos a todos. Aliás, não são poucos os historiadores que sustentam que a criação de um livre e abrangente sistema de previdência social, ao qual tinham direito todos os cidadãos, era uma das maiores conquistas da República de Weimar.

Seria equivoco alguém sustentar que estas opções não tinham motivos políticos claros. Bismarck tentou conseguir a aprovação da classe trabalhadora, enquanto os governos de Weimar utilizaram o Estado de previdência social para conseguirem a aprovação da maioria do povo alemão.

Isto, na prática, significa que seus herdeiros de hoje conhecem – em primeira mão – a necessidade política que atende o Estado de previdência social. Mas, igualmente, conhecem – muito bem aliás, que – as consequências que poderá ter ou sua contração ou sua subordinação à burocracia. A crise da economia alemã na década de 1920 transformou o Estado de previdência social em caricatura. O corte de pessoal das instituições estatais de previdência social, a aplicação de ainda maiores controles – econômicos e patrimoniais – e a burocracia no sistema de gerenciamento do Estado de previdência social resultou em exclusões de segurados, assim como, na dúvida generalizada sobre democracia e complementação.

Tudo isso são lições do passado, as quais os alemães têm pago muito caro. Quer dizer que conhecem que, na realidade, o “tesourar” do Estado social não só não soluciona os problemas que enfrenta uma economia em crise, mas, ao contrário, os agrava ainda mais, porque cria as premissas para total desestabilização do sistema.

Sob este prisma, a persistência dos alemães na aplicação sobre os superendividados países do Sul Europeu de políticas de limitação do sistema de previdência social é não somente beco sem saída, mas também, na maioria das vezes, curva extremamente perigosa.

monitor mercantil

Mary Stassinákis

Nenhum comentário:

Postar um comentário

QUAL É A SUA OPINIÃO?

Deixe seu comentário e acrescente idéias e respostas.